O modelo de Gordon
O modelo de crescimento de Gordon, proposto por Myron Gordon e Eli Shapiro em 1956, diz que uma ação vale o valor presente de todos os dividendos que ela ainda vai pagar. Se esses dividendos crescem a uma taxa constante para sempre, a soma infinita vira uma conta simples:
V0 = D1 ÷ (Ke − g)
- V0: valor justo estimado da ação hoje;
- D1: dividendos esperados por ação nos próximos 12 meses (dividendos e JCP brutos). É uma estimativa do futuro: um ponto de partida comum é o que a empresa pagou nos últimos 12 meses corrigido pelo crescimento, D0 × (1 + g);
- Ke: o retorno anual que você exige para ter a ação, em decimal (12% entra como 0,12);
- g: o crescimento anual dos dividendos no longo prazo, para sempre, em decimal.
O modelo só funciona com Ke maior que g. Se os dividendos crescessem para sempre mais rápido que o retorno exigido, o valor seria infinito, o que não faz sentido. Com Ke igual ou menor que g, a calculadora avisa que as premissas não servem.
Taxas nominais
Ke e g têm de estar na mesma convenção. A calculadora usa taxas nominais, com a inflação dentro:
- Ke começa com a taxa do Tesouro Prefixado à venda com o vencimento mais longo, o retorno de um título sem risco de calote. Como a ação tem mais risco que o Tesouro, faz sentido somar um prêmio, de alguns pontos percentuais;
- g começa com o IPCA esperado pelo mercado no boletim Focus do Banco Central, ou seja, dividendos que só acompanham a inflação, sem crescimento real. Uma empresa madura dificilmente cresce, para sempre, mais que a economia.
Se preferir taxas reais, use as duas reais: Ke acima da inflação (como a taxa do Tesouro IPCA+) e g sem a inflação.
Preço-teto e margem de segurança
Ligando a margem de segurança, a calculadora desconta um percentual do valor justo e mostra o preço-teto, o maior preço que você aceitaria pagar:
Preço-teto = V0 × (1 − margem de segurança)
Exemplo calculado
Uma ação deve pagar R$ 3,00 por ação nos próximos 12 meses. Você exige 12% ao ano e espera crescimento de 5% ao ano:
- Valor justo: 3 ÷ (0,12 − 0,05) = 3 ÷ 0,07 = R$ 42,86;
- Com margem de segurança de 20%: 42,86 × (1 − 0,20) = R$ 34,29.
Com a ação cotada a R$ 30,00:
- Potencial até o valor justo: 42,86 ÷ 30 − 1 = 42,9%;
- Desconto sobre o valor justo: 1 − 30 ÷ 42,86 = 30%;
- Distância até o preço-teto: 34,29 ÷ 30 − 1 = 14,3%: a cotação está abaixo do preço-teto.
O potencial não conta os dividendos recebidos no caminho, só a diferença de preço.
Como ler o resultado
- Abaixo do preço-teto: a cotação está abaixo do valor justo e com o desconto mínimo que você escolheu;
- Entre o preço-teto e o valor justo: abaixo do valor justo, mas sem o desconto mínimo;
- Igual ao valor justo: o mercado paga o mesmo que a estimativa;
- Acima do valor justo: o mercado paga mais que a estimativa. O desconto aparece como prêmio.
Essas faixas são só o resultado da conta com as suas premissas, não uma recomendação de compra ou venda.
Sensibilidade às premissas
O modelo é muito sensível a Ke e g, porque o resultado depende da diferença entre os dois. No exemplo, com g de 6% em vez de 5%, o valor justo vai a 3 ÷ 0,06 = R$ 50,00, 17% a mais; com g de 4%, cai para 3 ÷ 0,08 = R$ 37,50. Teste vários cenários antes de tirar conclusões.
Limites do modelo
O modelo de Gordon supõe que os dividendos crescem a uma taxa constante para sempre. Serve melhor para empresas maduras e com política de dividendos previsível, como as de energia elétrica, saneamento e bancos. Não serve para empresas que não pagam dividendos, que estão em fase de crescimento acelerado ou que têm lucro muito instável.
Ele também não é o mesmo que o preço-teto de Bazin, que olha só o dividend yield dos últimos 12 meses, nem que a fórmula de Graham, que parte do lucro por ação. Nas páginas das ações há o valor justo de Gordon de cada papel que pagou proventos, com os campos desta calculadora preenchidos.